TEMOR E TREMOR – SOREN KIERKEGAARD

POR DANIEL GOMES

MERGULHE NA ANGÚSTIA E SOFRIMENTO DO SERVO FIEL DE DEUS

Abraão é para os cristãos um exemplo de fé, com
uma história incrível de esperança no meio das
adversidades. Kierkegaard, no entanto, vai mais
além. No que muitos consideram a sua obra-prima, o
filósofo dinamarquês expressa a sua tremenda admiração
pelo homem que apelida de “cavaleiro da fé.”

Temor e Tremor não podia ser um título mais adequado para esta obra poderosíssima de Søren Kierkegaard, dedicada ao episódio mais marcante da vida de Abraão: o sacrifício de Isaque. Kierkegaard aborda a forma impressionante como Abraão lidou com o teste que lhe foi imposto: durante mais de três dias, Abraão viajou com o seu filho Isaque – o filho que Deus prometera a Abraão já em idade bastante avançada, através do qual iria nascer a nação de Israel – com a missão de o sacrificar. Sem contar a ninguém do teste que Deus lhe havia encarregado, Abraão enfrenta sozinho a angústia aterradora de ter de matar o seu próprio filho. Mesmo no cimo do monte, tratando dos preparativos necessários para o sacrifício do seu filho, Abraão não deixa de amar Isaque, nem deixa de crer nas promessas que Deus cumprirá através de Isaque – e no entanto, Abraão está preparado para levar a cabo o seu dever de forma intransigível.
É esta contradição, este paradoxo insólito e quase inexplicável que cativa a curiosidade do autor. Kierkegaard compara o exemplo de Abraão com o de Agamémnon e o de Fausto, enaltecendo o personagem bíblico acima de todos os outros pela sua fé e pela natureza singela do seu teste. Para o dinamarquês, Abraão é um caso excecionalmente raro; tentar emular o seu carácter na sua plenitude – o carácter de um “cavaleiro da fé” – não terá o mesmo resultado. Apesar disso, Abraão é também um caso digno de admiração do qual se podem tirar grandes lições de vida aplicáveis a qualquer indivíduo.
A linguagem erudita tão frequentemente utilizada pelo filósofo e a complexidade dos seus pensamentos tornam a leitura desta obra numa tarefa extenuante, mas sem dúvida compensadora. Este é de facto um estudo incomparável do exemplo de fé que Abraão é para milhões e milhões de crentes, exemplo esse que também influenciou a vida de um dos maiores filósofos do século XIX.