INVITATION TO RETREAT (CONVITE PARA UM RETIRO) – Ruth Haley Barton

INVITATION TO RETREAT (CONVITE PARA UM RETIRO) – Ruth Haley Barton

POR PAULO SÉRGIO GOMES

 

REDESCOBRINDO E RECONQUISTANDO O NOSSO PRÓPRIO SER

Segundo a autora, Ruth Haley Barton, especialista
na organização de retiros espirituais, a frequência
de um retiro trata-se de uma prática contra-cultural,
correspondendo a um convite divino para descansar,
algo incomum nos dias que correm, ajustando-nos aos
ritmos, discernindo a presença de Deus, recalibrando e
reposicionando as nossas vidas segundo a Sua vontade.

Num sentido mais profundo, trata-se de um generoso compromisso pela nossa amizade com Deus, alocando um extenso período de tempo para estar de parte, no propósito de estar com Deus e dar, inteira e incondicionalmente, toda a atenção a Deus. Barton chama-lhe retirada estratégica, ou seja, afastar-se da azáfama diária, da sobre-ocupação, das expetativas dos outros, de persistir em combater os desafios problemáticos da mesma forma, no fundo daquilo que não funciona na nossa vida.
Para muitos, participar num retiro pessoal chega já no limite, quando se está perante o “desastre eminente”. Foi o que aconteceu com Jason Sullivan. Depois de década e meia de permanente excesso de informação, sobre-estimulação, contou a sua história num artigo intitulado “Deixei de ser um Ser Humano”, buscando a ultimate detox num destes eventos.
Na ressaca da antiga existência, teve de ser persistente para lidar com o desligar da tecnologia, da verificação constante dos emails, de refrescar o Instagram, as mensagens. “Desligando-se” readquiriu o gosto pela vida, as memórias de infância, a alegria da amizade.
Quando é o tempo apropriado para um retiro? Num extremo, quando estamos perigosamente cansados. Enquanto vivemos muito tempo acima dos nossos limites, funcionando para além das nossas capacidades, sem dar conta das origens da nossa extenuação, os nocivos níveis de exaustão acumulam-se e, nesse estado, somos incapazes de dar o nosso melhor, de decidir com sensatez, drenamos as nossas energias e o nosso corpo pode começar a colapsar perante a pressão a que está sujeito. O Dr. Gabor Maté, no seu bestseller “When the Body Says No” (Quando o Corpo Diz Não), sintetiza: “O stress excessivo ocorre quando o que se exige a um organismo excede a sua capacidade razoável para corresponder ao que lhe é exigido”.
Num retiro, é importante descobrir o ritmo apropriado a cada um, pois a ênfase principal está em que o participante encontre a quietude, o silêncio, o descanso, ouvindo e respondendo ao Espírito de Deus, permitindo a liberdade de acomodar o corpo e o espírito, e evitando sobrecarregar o plano de atividades. Como escreveu Dallas Willard, “A cura para o ter muito que fazer é a solidão e o silêncio (…) Essa perturbadora sensação de ter advém sobretudo do vácuo que existe na nossa alma…”.

Determinar os períodos de meditação e oração ajudará também a ajustar-se a um novo ritmo diário, diferente daquele a que se está habituado. O livro exemplifica diversos tipos de programa, desde horários fixos a outros mais flexíveis, consoante a abordagem de cada pessoa, fornecendo ainda um apêndice final com sugestões de planos detalhados para os tempos de oração, adoração e liturgia.
No fundo, um retiro não é mais do que um convite a recalibrarmos a nossa vida, ou aspetos da nossa existência que carecem de um ajustamento. Ao encontrarmos a liberdade espiritual vislumbramos a necessidade de recalibrarmos a nossa vida respondendo a algumas perguntas, como: “O modo como estou a viver o dia-a-dia corresponde ao desejo mais profundo do meu coração?” ou “Priorizo as minhas atividades diárias segundo os propósitos de Deus para mim, e quais são elas?” E assim podemos recomeçar com a sensação clara de como Deus nos guia a viver durante épocas conturbadas.
Num segundo apêndice final, a autora oferece um guia prático para a planificação completa de um  retiro, do local de retraimento aos itens que devem acompanhar o participante, o que selecionar de acordo com o propósito e intenção, sem esquecer uma notificação à família e colegas quanto ao seu afastamento e o “desligar” da tecnologia.
De fácil leitura, Invitation to Retreat ao mesmo tempo que nos convida à reclusão, orienta-nos nessa importante decisão de conceder um período contemplativo a sós, connosco, e com Deus. O único critério para tal é que seja num lugar em que se entra em silêncio e onde se é suportado pelo silêncio.