O PROFETA FERIDO

Se as pessoas estão em comunhão com Deus e em comunidade umas com as outras, o ministério será o extravasar natural do seu amor.

POR PAULO SÉRGIO GOMES

B6

EM PROL DA LEITURA
EM PROL DA LEITURA

TÍTULO

O PROFETA FERIDO

AUTOR

HENRI NOUWEN

A personalidade de Nouwen, extremamente carente de afetos, sensível e sempre pronto a cuidar das feridas dos outros, através das suas próprias, deu-lhe o epíteto de “curador ferido”.

UM HOMEM, SENHOR de uma espiritualidade absoluta, para quem a contemplação faz parte integrante de toda a ação diária para Deus, mas também um ser frágil, dependente do amor dos outros. Vivia numa latente fricção interior, desespero atroz porquanto não suportava o alheamento dos amigos, mesmo que sem intenção, exigindo a sua atenção quando por vezes tal era impossível.
Na sua última entrevista à jornalista Rebecca Laird, editora de “Sacred Journey”, Nouwen afirmou que “Estou aqui só para dizer aquilo que sou e para me pôr à disposição dos outros”.
Cinco dias antes da sua morte, Nouwen partiu para a Holanda, a fim de se encontrar com um realizador de televisão como quem viajaria para São Petersburgo, cidade onde iria gravar um documentário sobre O Regresso do Filho Pródigo (vidé Biblion nº1). Tal já não viria a acontecer, pois foi acometido de um enfarte após a chegada a Amsterdam. Hospitalizado de imediato, registou uma ligeira melhoria, mas passados poucos dias sucumbiria a um segundo ataque.
Henri tinha uma apreciação enorme pela arte, sendo um grande admirador de Vincent Van Gogh, chegando a prefaciar uma obra intitulada Van Gogh and God, onde se enaltecia a espiritualidade que brotava das suas aguarelas. Também na sua carreira como professor catedrático, a influencia do famoso pintor foi expressiva tendo geralmente um impacto muito significativo junto da sua audiência estudantil.
Os seus livros primam pela incessante busca da intimidade espiritual, pela partilha das suas feridas da vida com a comunidade, pelo amor incondicional e a ajuda ao próximo. Podiam ser encontrados na Casa Branca, na mão da então Primeira-Dama norte-americana, Hillary Clinton, ou nos escombros de uma casa destruída por bombardeamentos na Bósnia.
Exímio comunicador, deixava uma marca indelével em quantos assistiam às suas conferências, mas por outro lado vivia por vezes numa desesperante insatisfação pessoal, pela falta de atenção, de amizade, de intimidade pessoal até, entregando-se à angustiante solidão, qual “palhaço triste”.
Quando, aos cinquenta e quatro anos, espantou quem o conhecia ao abandonar a vida académica para pastorear uma pequena comunidade de pessoas com graves deficiências físicas – L’Arche Daybreak, em Toronto, retirando-se para melhor conhecer as suas próprias deficiências. Apesar de um colapso emocional, que o levou à terapia, manteve os seus escritos, expondo-se abertamente e deixando clara a sua homossexualidade, que ele próprio só aceitou nos últimos anos de vida, e que não se pode dissociar do que transpunha nas suas obras.
Aquando da sua morte, o consenso ecuménico em torno da figura de Henri Nouwen era de tal forma abrangente que, desde monges ortodoxos orientais a protestantes evangélicos, de católicos radicais a judeus laicos, dos mais diversos quadrantes religiosos “o mundo da espiritualidade contemporânea chorou um dos seus expoentes mais influentes e prolíficos”.